iolanda no Capitólio: um feliz caso de amor

Há pouco mais de um ano estava a entrevistar iolanda a propósito do seu EP de estreia Cura. “Sonhar nunca é demais e iolanda é prova disso”, foi assim que iniciei o meu artigo publicado aqui na Playback. Estava certa. Tive a oportunidade de estar presente na “festa de lançamento” – como a própria lhe chamou – do seu primeiro curta-duração e, meses mais tarde, no concerto que deu no Teatro Aveirense. Quem diria que viria a representar o nosso país, munida de confiança e orgulho, no Festival Eurovisão da Canção 2024 – onde conquistou o décimo lugar – e a esgotar, num piscar de olhos, dois Capitólios. Um verdadeiro marco no seu percurso artístico. Atenção, «quem diria» no melhor sentido da expressão. Recordo-me vivamente de ouvir iolanda pela primeira vez e pensar she’s the one. Sempre acreditei que este dia ia chegar, que o seu reconhecimento ia ganhar asas como nunca.

Na minha cabeça, ainda estou na noite de 23 de Maio, quando iolanda subiu ao palco do Capitólio, em Lisboa, para o segundo de dois concertos em nome próprio. E é sobre este momento que vos venho falar e, ao mesmo tempo, fazer uma ode a uma artista cuja missão é ser honesta consigo mesma, algo extremamente complicado num mercado tão competitivo, e que desafia todas as convenções na cena pop, R&B, electrónica e hip-hop, e na cena da música tradicional portuguesa. Uma artista que já se tornou um tesouro nacional.

Uma sala cheia e acolhedora. Um público entusiasmado para o que aí vem. Um som acutilante. Um jogo de luzes frenético. Começaram por subir ao palco os músicos que acompanharam iolanda: Luar, YANAGUI e Guss. Que banda de sonho, porra. Juntos criaram uma atmosfera altamente surreal e envolvente, ora rica em batidas fortes e apetitosas, trazendo à flor da pele a vontade de dançar, ora a partir de harmonias tensas e sonantes, conduzindo a plateia numa viagem pelas profundezas das emoções. Completaram-se perfeitamente uns aos outros. Foi muito bonito o que aconteceu naquele palco, foi como se os seus instrumentos se tivessem convertido na sua única forma de expressão durante uns largos momentos. Nada mais importava a não ser a música – e partilhá-la com os corpos e corações que se estendiam à sua frente e que imploravam por mais e mais. E assim foi, do início ao último segundo.

iolanda no Capitólio por Lucas Coelho
Fotografia: Lucas Coelho

Recebida de braços abertos, com um forte aplauso, por uma plateia ansiosa de ouvir os seus desabafos, iolanda surgiu vestida de branco e abriu o alinhamento com “CALMA”, o seu mais recente single e o primeiro tema de avanço do seu próximo EP. Lado a lado com os mesmos bailarinos que a acompanharam na Eurovisão (Renato Garcia, Inês Gonfer, Telmo Leite, Mélissa Cardoso e Gonçalo Carrapiço), a performance ganhou uma energia arrebatadora, fazendo o público vibrar desde o primeiro instante. A partir daí, sabíamos que a noite estava ganha.

Daí em diante, iolanda intercalou as canções que dão vida a Cura – um disco que ainda não larguei desde que foi lançado e que já me fez chorar e dançar tantas vezes – com temas ainda por lançar. Escutou-se, portanto, aquelas que eram as mais esperadas da noite, por estarmos tão acostumados a ouvir nas plataformas de streaming, que é o caso de “V de Volta”, “Cura”, “Estas são as últimas canções que escrevo sobre ti”, “Quem Tem Mossa”, “Juro Já Nem Paro” (ao lado de Milhanas, com quem também interpretou “Mundo”) e “Lugar Certo”, dando ainda espaço para uma das suas bailarinas brilhar ao som da intro “31 de Dezembro de 2020”. Com um cunho marcadamente autobiográfico, umas foram tocadas com toda a pujança e outras em formato acústico, e a verdade é que a esmagadora maioria do público dominava o catálogo de iolanda quase por completo, que embora curto é bastante admirável. Que sejamos tão felizes quanto fomos a ouvir os duetos com Matheus Paraizo (“Assim”) e SOLUNA (“Contigo”), faixas retiradas do álbum de estreia do coletivo AVALANCHE. Numa altura em que anda a trabalhar num novo trabalho, iolanda recorreu ainda a um leque de faixas – a lançar num futuro próximo – que tivemos a sorte de escutar ao vivo pela primeira vez – “Água”, “Olhar Para Baixo”, “Pó e Cinza”, “P’ra Sermos Um Agora” e “Complicado”. Se havia alguém na plateia que ainda não se sentia cem por cento conquistado por iolanda, acredito plenamente que estes novos temas tenham feito mudar de ideias. iolanda tanto nos levou às lágrimas, com as suas letras sinceras e dilacerantes, como também conseguiu fazer-nos esquecer, por segundos, das nossas tristezas, com um flow engenhoso e impressionante aliado a um carisma e a uma sensualidade magnética. Nas pausas entre as músicas, ainda fez soltar gargalhadas com o seu humor característico, e também é disto que a gente gosta.

iolanda no Capitólio por Lucas Coelho
Fotografia: Lucas Coelho

Houve também direito a duas versões intensas, mas bem diferentes, de “Grito”, tema que levou à Eurovisão: uma versão acústica adocicada pelos belíssimos timbres de Rita Onofre (que também emprestou a sua voz em “Beira Rio”) e ÏNIA, capaz de silenciar a multidão que se estendia à sua frente, e uma versão explosiva e arrepiante, que fechou a noite com chave de ouro. O “grito” final transformou-se num reflexo do que a música significa para iolanda e para os seus ouvintes: uma união de almas através da arte, onde cada nota é um elo de ligação e cada verso é uma partilha de sentimentos.

Mais do que um mero concerto, a passagem de iolanda pelo Capitólio foi um ato de pura partilha e amor. Que tudo no mundo fosse assim. Fale-se sobre a presença dos seus amigos mais próximos no palco (e não só) que criou uma atmosfera de cumplicidade e pura emoção, refletida nas belas declarações de amor trocadas durante a noite. Os olhares enternecedores, os largos sorrisos genuínos e os abraços afetuosos entre iolanda e aqueles que iam deixando as suas pegadas no palco não deixaram dúvidas sobre a profundidade destas amizades, deixando o público com o coração bem quentinho. iolanda ainda dialogou, interagiu e impactou a plateia com a sua força musical aliada a uma rica qualidade lírica, convidando os espectadores a participar – quer a cantar, quer a dançar, quer a gritar, quer a chorar – como se fôssemos um só. Fomos livres.

iolanda no Capitólio por Lucas Coelho
Fotografia: Lucas Coelho

Quando o concerto chegou ao fim, a mesma questão foi levantada por uma série de pessoas: o que acabámos de presenciar? O público saiu totalmente rendido. Acreditem nesta vossa escriba quando vos digo que iolanda transcende a música e, verdade seja dita, aqueles que decidiram marcar presença na noite de 23 de maio (e na noite anterior, claro está) no Capitólio foram as pessoas certas no “lugar certo”. O que aconteceu ali foi mágico.

Sim, a Eurovisão pode ter elevado o seu nome a um novo patamar, mas a verdade é que o trabalho árduo e a dedicação de iolanda desde o princípio já tinham traçado o seu caminho de sucesso. “Nasci do trabalho duro / Não cresci na luz da glória”, não é por acaso que ela o diz. Não há como enganar: iolanda está destinada a voos cada vez mais altos e nós continuamos a acompanhar, deste lado, a ascensão de uma das artistas mais promissoras de Portugal. Quem a escuta, sabe que iolanda é mesmo especial. Sabe que iolanda é amor. Sabe que iolanda é conforto. Sabe que iolanda é esperança. Sabe que iolanda é liberdade.

Nascida e criada em Aveiro, mas com a Covilhã sempre no coração, cidade que a acolheu durante os seus estudos superiores. Já passou pelo Gerador, e pelo Espalha-Factos, onde se tornou coautora da rubrica À Escuta. Uma melómana sem conserto, sempre com auscultadores nos ouvidos e a tentar ser jornalista.
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No lugar certo. Na hora certa.

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