O que é a arte?
É uma pergunta antiga, quase gasta. Já teve mil respostas e, ainda assim, nenhuma parece suficiente. Há quem diga que é expressão. Outros, técnica. Há quem a tente medir, catalogar e explicar. Mas a arte, quando acontece mesmo, não se explica. Sente-se. Sente-se no silêncio antes do primeiro acorde, no arrepio que aparece sem aviso, naquele momento estranho em que deixamos de estar só a ver e passamos, sem dar por isso, a fazer parte de qualquer coisa maior. Na noite de 8 de abril, no MEO Arena, a pergunta ganhou forma.
Se houve algo que se tornou claro desde cedo foi que este não era um concerto pensado como uma sequência de músicas, mas antes uma construção. Dividido em quatro atos, tal como uma ópera, o espetáculo percorreu dois álbuns – o eterno MOTOMAMI (2022) e o mais recente LUX (2025) – como quem percorre estados de espírito, sem nunca se prender a uma lógica linear. Havia uma narrativa, sim, mas era sentida mais do que compreendida.
E talvez por isso tudo começasse com uma imagem tão inesperada quanto precisa: ROSALÍA em palco, vestida como uma bailarina saída de um imaginário quase infantil – de tutu cor-de-rosa, movimentos contidos e um corpo que parecia leve demais para o peso do que viria a seguir. Não era apenas encenação. Havia técnica. Em certos momentos, elevava-se nas pontas dos pés, como num verdadeiro exercício de ballet, revelando um rigor que contrariava qualquer ideia de fragilidade. Mas toda essa leveza era enganadora. Bastaram poucos minutos para perceber que ali não havia fragilidade. Havia controlo absoluto.
Ao longo do concerto, o corpo tornou-se linguagem. Não só pela dança, que oscilava entre o rigor quase clássico e a explosão crua, mas também pela presença dos bailarinos, que nunca surgiam como um simples acompanhamento. Moviam-se como parte do mesmo impulso, alinhados na mesma pulsação e intenção. De ato para ato, também o vestuário deixava de ser apenas estético, tornava-se transformação. Cada novo look acompanhava as mudanças de som e de energia, marcando uma presença em constante mutação – da leveza quase clássica à exposição mais crua e eletrónica. No fundo, nada ali era fixo. Cada momento parecia fechar sobre si mesmo, mas deixava sempre uma fissura – algo por resolver, que o seguinte vinha transformar.

E depois havia o som: mutável e imprevisível. A passagem por “Berghain” transformou a arena numa espécie de rave coletiva, com a techno a tomar conta do espaço de forma quase física, graças ao remix de Conrad Taylor na parte final. Não era só ouvir, era também sentir o chão a vibrar e o corpo a responder sem pedir autorização. Como se a arena deixasse, por momentos, de ser sala de espetáculos e passasse a ser outra coisa: mais escura, mais densa, mais próxima de um corpo coletivo em ebulição.
E se em “Berghain” o corpo era tomado pela repetição e pelo excesso, noutros momentos – como em “El Redentor” ou “La Yugular” – surgia uma dimensão mais orgânica, quase cinematográfica, onde a instrumentação ao vivo acrescentava profundidade e textura, como se o espetáculo se expandisse para lá do digital e do imediato. Depois havia o outro extremo, o descontrolo calculado de temas como “SAOKO”, “LA FAMA”, “BIZCOCHITO” ou “DESPECHÁ”, onde tudo parecia prestes a sair do sítio, mas nunca saía completamente.
Essa recusa em ser uma coisa só foi, talvez, o traço mais marcante da noite. Do experimental ao íntimo, do excesso ao silêncio, tudo coexistia. E, no meio disso, surgiam momentos que pareciam suspender o tempo, como “Memória”, interpretada com a magnífica Carminho. Aqui, o espetáculo despia-se de artifícios. Ficava só a voz, o peso das palavras e uma ponte improvável entre universos que, naquela noite, fizeram todo o sentido. Não havia coreografia que competisse com aquilo. Nem luz que distraísse. Só duas vozes a ocupar o mesmo espaço e um silêncio raro, quase respeitoso, vindo de uma plateia inteira, daqueles em que ninguém se atreve a respirar mais alto do que o necessário.
Mas mesmo nos momentos mais contidos, o lado visual nunca desaparecia – transformava-se. As luzes deixavam de ser mero suporte e passavam a definir o espaço, a guiar o olhar e a criar atmosferas que mudavam com a música – ora mais íntimas, ora mais densas, quase claustrofóbicas. As telas, por sua vez, ampliavam essa experiência, como se prolongassem aquilo que acontecia em palco.
Em momentos, passavam a fazer parte do próprio espetáculo. Havia algo de estranho, quase onírico, nos interlúdios – como o vídeo de bailarinos a tentar alcançar uma nota quase que inalcançável de “Mio Cristo Piange Diamanti”, num esforço que parecia tão absurdo quanto hipnótico. E depois, sem aviso, tudo mudava de registo. O espetáculo aproximava-se, tornava-se mais leve, quase cúmplice, como no momento do confessionário com um fã, quebrando a escala do que víamos e trazendo-o de volta a um lugar inesperadamente humano.

E foi isso que tornou tudo mais eficaz. No meio de uma produção visualmente imponente, havia sempre espaço para a proximidade, para o erro, para o riso e para a interação (e ROSALÍA bem que conseguiu comunicar connosco muitas vezes em português). No fim, pouco importava a ordem das músicas. O que ficou, pelo menos para mim, foi outra coisa. Algo difícil de definir, mas impossível de ignorar. Porque mais do que um concerto, aquilo foi um objeto artístico em constante mutação. Um lugar onde corpo, som, imagem e emoção deixaram de existir separadamente.
É isso que distingue um grande espetáculo de uma verdadeira obra de arte: a capacidade de permanecer. De continuar a ecoar muito depois de as luzes se apagarem e muito depois de o som desaparecer. Naquela noite, no MEO Arena, não se assistiu apenas a um concerto. Assistiu-se a algo que ficou.
E no fim, a pergunta mantém-se. O que é a arte?
Talvez seja isto.

