Descobrir que ainda tinha neurónios para escrever este editorial foi uma agradável surpresa—pensava que tinham todos sido queimados pelos 40 graus que assolam Paris há coisa duma semana (mas que na minha percepção mais parece um mês). É engraçado quando pensamos no quanto nos advertiam que fumar ganzas teria este efeito, principalmente porque esses avisos aconteciam nuns longínquos tempos em que 30 graus durante três dias já era algo fora do comum. E eu não sou assim tão velha.
É a segunda vez consecutiva que Paris passa por uma vaga de calor tão intensa no pico do verão. Sei-o porque no ano passado também calhou na altura da Fête de la Musique; das cerca de 12 horas que passei a deambular pelas ruas, lembro-me particularmente de estar enlatada junto com outras tantas sardinhas (à boa moda de São João) no Canal de Saint Martin a assistir ao set do DJ Ramon Sucesso. Era uma da manhã e estavam 35 graus. Este ano as memórias são semelhantes, dado que a meteorologia foi novamente implacável e até deu origem a alguns cancelamentos e proibições como a de consumo de álcool na via pública a menos que associado a um estabelecimento (ninguém respeitou, claro). Apesar de ter aguentado menos horas (o cansaço pela extensão da vaga já apertava), tenho recordações igualmente suadas: dum puto vestido de padre a dançar ABBA, das valentes mangueiradas colectivas que nos salvaram durante o set do Diplo, duma banda de covers à antiga (ou seja, apenas ligeiramente competente mas imensamente entusiasmada) a tocar 4 Non Blondes. Nesta última toda a gente cantava em coro, emocionando-se mais pela ligeira brisa que se fazia sentir nesse momento do que pela nostalgia que a música provocava. Após a ovação final, esvaziei o resto da minha bisnaga por mim abaixo e segui para casa.
Tudo isto pode parecer romântico, mas não é. Podemos (e devemos) sentir-nos revoltados com a inacção da classe governamental perante as consequências assustadores (e precoces) das alterações climáticas—principalmente quando as soluções oferecidas por essa mesma classe se limitam a pequenas gotas num deserto. Um tapar o sol com a peneira, literalmente. Taxar fortunas feitas através de combustíveis fósseis? Apostar na transição energética? Legislar e limitar novos data centers? Não, isso é anti-progresso. Pior: é woke.
O panorama previsto para 2050 irá chegar mais cedo, e isso deveria ser suficiente para nos mexermos. Mas dá demasiado trabalho, implica demasiadas alterações à rotina (como assim não posso continuar a gerar cartazes para as festas da minha aldeia com IA?), e requer uma tomada de consciência que, no fundo, nos recusamos a assumir. Afinal de contas, temos o que merecemos—é só pena que a humanidade se extinga duma forma tão estúpida.

