Lembro-me quando me falaram do Vodafone Paredes de Coura pela primeira vez. Estava na minha adolescência, e alguns dos amigos que fiz online num fórum sobre um joguinho virtual de ciclismo frequentavam esse festival. Falavam dele como uma quase meca da música alternativa, um oásis para os melómanos na margem do Taboão.
Em 2019, cumpri o meu sonho de ir “a Coura”. Pedi aos meus pais o passe geral para o Natal e, apesar de dificuldades, cederam. Ofereceram-me. Nesse ano, apesar de estar a passar por um dos períodos mais depressivos da minha vida, a minha ida a Coura serviu como um restart. Sai de lá a querer mudar muita coisa na minha vida, e vi concertos que me marcaram muito. Chorei em Car Seat Headrest, fiquei estarrecido a ver o concerto da Patti Smith, fiquei espantado com os black midi. Mudei em Coura e, por isso, estarei sempre grato ao festival.
Depois, claro, a pandemia. Jejum até 2022, ano em que eu e outros tantos voltaram a Paredes de Coura. Numa edição recheada de grandes concertos, como Turnstile, L’Impératrice, Yves Tumor, Viagra Boys (nunca me esquecerei da mordidela que levei nesse concerto), outros momentos da edição de 2022 deixaram-me com uma sensação agridoce. Sendo a primeira edição pós-COVID-19, o acampamento e o recinto do festival estiveram completamente ao barrote. Tudo esgotado, pessoas em todo o lado, espaço mal para existir. E depois, claro, o lendário (pelas más razões) último dia, onde o trio seguido de concertos por parte de Princess Nokia (um fever dream), slowthai (demasiado curto) e Pixies (um arrasto descomunal de mais de duas horas depois de uma sem nada a acontecer dentro do festival após o término precoce do concerto do slowthai) fecharam essa edição com uma nota não tão positiva. Voltei em 2023, num festival que nem de perto nem de longe estava tão cheio como a edição anterior. Little Simz sob chuva torrencial, uma tenda inundada, chatear amigos com o meu ressonar, aquele concerto épico dos MAQUINA., chorar com Tim Bernardes e Lorde. Muitas histórias ficaram. Porém, senti que, após 2023, precisava de uma pausa. Para refletir sobre Coura à distância e entender como me sentia perante a evolução do festival nos últimos tempos. (Nota #1: Interrompi esse interregno em 2025 devido a um momento de trabalho, mas não vivi o festival como viveria enquanto público).
Estar ausente de Coura permitiu-me viver o festival de outra forma. Se antes de 2019 sentia esta necessidade de viver o “Couraíso” – perceber se aquilo que as pessoas reportavam era real ou não -, tanto em 2024 como em 2025 não senti grande FOMO. Claro, gostava de ter visto os Wednesday em 2024, e uma carrada de nomes da edição de 2025 – o MJ Lenderman, o Geordie Greep, Joey Valence & Brae, Nilüfer Yanya. No entanto, apesar disso, sinto-me cada vez mais distante entre aquilo que achava que era o Vodafone Paredes de Coura, e aquilo que realmente é.
Muitas das coisas que ouvi sobre Coura revelaram-se verdade. Tendo já rodado todos os “grandes” festivais deste país, não houve nenhum festival onde me diverti tanto como em Paredes de Coura, e onde vi tantas bandas de que gosto. Só o Primavera Sound se aproxima disso – e não são à toa as relações simbióticas que existem entre as promotoras de ambos os eventos, a Picnic e a Ritmos. Mas com o tempo, também comecei a aperceber-me que muita coisa estava a mudar em Paredes de Coura. Os mais antigos do festival dizem que a real mudança começou anos antes ainda de 2019, quando se registou um aumento progressivo da capacidade do festival até chegar aos 25 mil espectadores por dia que hoje podem viver o “habitat natural da música”. Mas pós-pandemia notam-se ainda mais mudanças – a nível de programação, a nível de público (e, por consequência, do ambiente – a quantidade de NPCs e betos lisboetas aumentou e muito nos últimos anos, porque é aí onde está o poder de compra), mas, acima de tudo, a nível de patrocinadores.
A relação do Vodafone Paredes de Coura com o seu público é crucial para o sucesso do festival. Há muitos devotos ao Couraíso que se deslocam à sua meca desde a primeira edição, em 1993, e há muitos outros que foram sendo conquistados com o tempo. Estes últimos, por vezes, ao defender o festival de algumas críticas – muitas delas justas – quase funcionam como stans do Vodafone Paredes de Coura. Este festival não pode fazer nada de errado. Não há más decisões de programação – quando tem havido, e muitas -, e há certas coisas que são perdoadas. Como, por exemplo, em 2025, o palco secundário deste festival ter sido patrocinado pelo Bacana Play, um casino online de apostas. Se a memória não me falha, havia mesmo um casino disponível para jogar na banquinha da marca. Num festival cheio de jovens. Se já sabemos que a vida hoje é pautada por uma gamificação em torno da sorte dos mercados – o financeiro, o imobiliário -, é natural que o próprio “indie” caia aqui (o “indie” enquanto comunidade já morreu há muito). Afinal, montar um festival neste momento é caríssimo, e o dinheiro tem de vir de algum lado – há essa desculpa. E que melhor dinheiro que uma das indústrias mais rentáveis e menos reguladas de Portugal e da União Europeia? Que o vício do jogo seja nefasto e um dos grandes problemas da sociedade portuguesa (sugiro irem a uma papelaria e verem quantas raspadinhas se vendem por dia…) não importa.
Contudo, a presença do Bacana Play não é uma traição a alguns dos supostos valores do Vodafone Paredes de Coura? Bem, se calhar para um festival que tem a Vodafone como patrocinador principal (e que no passado, já teve a EDP), esses valores nunca existiram propriamente. A ideia do Couraíso como espaço seguro e progressivo é apenas uma ideia fantoche. Um marketing super bem sucedido, digno de caso de estudo, para gerar uma relação parassocial entre consumidor e marca, e dar a entender que o festival é diferente dos outros. Sim, o Vodafone Paredes de Coura pode ter a tua nova banda alternativa favorita no cartaz e não ter tantos espaços para brindes a fazer barulho como o Rock in Rio ou o NOS Alive, mas passo a passo, também se vai transformando naquilo que os outros festivais são: centros comerciais a céu aberto onde a música é apenas figura de fundo para o capital fazer das suas.
Eis então que uma das novidades para a edição de 2026 do Vodafone Paredes de Coura é revelada. Se o cartaz da edição deste ano não é grande coisa, a grande novidade deste ano, ao que parece, é uma parceria do festival com a ERA – uma imobiliária. Que irá apresentar – preparem-se – um “condomínio feito à medida do festival de música”, capaz de albergar 64 moradores. E o que precisas de fazer para morar neste condomínio durante o festival? Simples! Vamos citar o que diz o artigo do ECO sobre o assunto – porque têm de ler este parágrafo todo para acreditarem nele:
“A marca desafia os detentores do passe geral do evento a encarnarem o papel de consultores imobiliários e a publicar um vídeo no Instagram da ERA Portugal a promover este condomínio como se tivesse acabado de entrar no mercado. Serão premiados os autores das propostas mais criativas. O passatempo decorre até 30 de julho e os vencedores serão anunciados no dia 31 de julho”.
Pausa para refletirem, e bebam o vosso café bem escuro como o Dale Cooper gostaria. Já o fizeram? Agora atirem a chávena contra a parede estilo Undertaker.
A realidade ultrapassa a paródia e palavras faltam para descrever o que acabou de ser citado. Uma parceria com uma imobiliária já é coisa suficiente para ser julgada em praça pública dado o papel destas na crise habitacional vivida neste retângulo à beira-mar. Mas uma parceria que envolve um concurso para influencers (porque é para esses que é destinado este concurso, não duvidem) fazerem publicidade à ERA e tentarem ganhar acesso a uma espécie de glamping privado ao lado do festival? Um golden circle é menos insultuoso que isto. (Nota #2: Além do “condomínio”, a ERA vai providenciar também uma “zona lounge” na Praia Fluvial do Taboão. Numa altura onde se discute a privatização das praias, a ativação de uma marca numa zona de acesso público é, no mínimo, uma decisão curiosa).
O Vodafone Paredes de Coura pauta por, na sua comunicação, assumir-se como um festival inclusivo. Este ano, fazem parte do cartaz bandas como os Prostitute, que possuem no seu DNA a libertação de todos os povos, ou os Kneecap, cujo apoio à libertação da Palestina é mais do que público e reconhecido. Tudo certo até aí, até nos lembrarmos que o maior nome da edição de 2026 do festival é M.I.A. Se há duas décadas o nome de M.I.A era sinónimo de entusiasmo e de bangers como “Paper Planes” ou “Boyz”, hoje o seu nome, fora a nostalgia associada, é mais lembrado pelas suas opiniões políticas dos últimos anos, que oscilam entre uma devoção a Donald Trump e um negacionismo puro e duro – tudo aquilo que, supostamente, o Vodafone Paredes de Coura é contra. Um espaço seguro para todes… certo?
A parceria com a ERA, tal como a parceria com o Bacana Play (que não se sabe ainda se irá continuar para a edição que se aproxima), devia servir para muita gente reavaliar a sua relação com o festival. Se calhar, aquele festival que vos tentou convencer que oferecia a experiência do Couraíso, na realidade, é igualzinho aos outros. Faz-te sentir especial por ires lá, e dá a entender que te está a oferecer uma experiência diferente da dos outros. Vais conhecer o teu amor aqui, a tua nova banda favorita. Em Coura, podes ser quem quiseres. Desde que pagues 130€ (+ taxas) e, ao comprares na Dice, ainda vendes um bocadinho dos teus dados para a Ritmos orquestrar mais campanhas publicitárias que possam continuar a passar a ideia de um retiro espiritual do indie no meio da natureza… e das marcas. Alguém pode pensar nas marcas?! Tenham cuidado – este festival não é vosso amigo. Mas quer muito que sintas que é.
O Vodafone Paredes de Coura decorre de 12 a 15 de agosto. Ainda há bilhetes disponíveis.

