Sejam bem-vindos ao mundo dos Digital Device

Um pequeno compasso de espera é tudo o que os Digital Device precisam para nos agarrarem. Depois, a música fala por si. As guitarras estridentes, as vozes dispersas que nos fazem sonhar, a ferocidade com que estas canções nos transportam para um universo de jovens loucuras, amores tumultuosos e crises existenciais. Sejam bem-vindos a Welcome to the World, o EP de estreia da mui-jovem banda lisboeta (ou devemos dizer oeirense?).“Exchanging Saliva”, a primeira canção do EP, é um cartão de apresentação incrível. Prova-nos de imediato que os Digital Device não estão para brincadeiras. Francisca Canelas (voz, guitarra), Lucas Pereira (bateria), Vasco Madeira (baixo) e Valerio Barbarossa (voz, guitarra) têm a energia e know-how necessários para fazerem música que nos enfeitiça. Queremos saber mais. Isto é rock’n’roll com a dose certa de ruído e estranheza. Ou, dito de outra forma, os Digital Device fazem música cool. Muito cool.

Os Digital Device começaram a tocar juntos em 2026. Este é um dado surpreendente tendo em conta a maturidade musical das canções de Welcome to the World. Nestas malhas, estes jovens soam como uma banda que toca junto há muito mais tempo. O seu panache lembra-nos logo os saudosos Pinhead Society, banda de culto portuguesa de meados da década de 90 que foi uma das grandes referências da Bee Keeper. Aliás, os Digital Device fazem música que podia fazer parte do catálogo de uma das mais importantes editoras independentes da história do rock alternativo português. Não sabemos se estes miúdos sabem o que é a Bee Keeper, mas os Digital Device fazem parte de um conjunto de bandas que ecoam os anos 90, como os Snow Bungalow, os Pangeia, os Parte Fraca. Bandas que têm os Sonic Youth, os Smashing Pumpkins ou os Unwound na ponta da língua; bandas cuja sonoridade se encontra dividida entre a melancolia de ser-se jovem adulto (no caso dos Digital Device, esta é escutada em “Light a Cigarette”, por exemplo) e as possibilidades que isso oferece (cantadas na efervescente “Space Vision”).

Se tudo isto significa que os Digital Device soam como uma banda perdida no tempo? Sim e não. Sim, no sentido em que a sua música não é bem inovadora. Possui um eco fantasmagórico, de um tempo não vivido ou, se calhar, de um tempo que desejavam ter vivido. Por outro lado, isto são canções que pertencem ao zeitgeist do rock alternativo do momento: o revivalismo do shoegaze, a exploração de bandas dos anos 90 esquecidas pelo cânone, uma androginia cheia de sentimento. Isto são canções que só poderiam ter sido feitas por uma geração que cresceu com a Internet e com uma coleção infinita de discos à sua disposição para escutar online.

Talvez seja por isso que, apesar dos fantasmas que nelas habitam, as malhas de Welcome to the World não deixam de soar algo futuristas. Quando fechamos os olhos ao escutá-las, fazem-nos acreditar em algo diferente. Num futuro melhor, mais risonho. As guitarras que têm voltado a fazer-se cada vez mais escutar significam também uma quebra com os ideais individuais comandados ao longo das últimas décadas. As bandas estão a regressar porque tudo é cíclico. E como tudo é cíclico, as bandas de agora estão a tentar reescrever o cânone das guitarras, tal e qual as bandas dos anos 90 tentaram fazer.

Os Digital Device fazem isso bastante bem. “Exchanging Saliva” soa a Sonic Youth, mas incorpora a velocidade dos Hüsker Dü e o humor das Wet Leg ou das Momma; “Space Vision” é o tipo de hino que os Fugazi apreciariam; “High Low” apresenta dinâmicas de quiet/loud dignas de uma banda que já tem muita mais experiência do que eles; “Light a Cigarette” carrega na distorção algures entre os Dinosaur Jr. e a emoção dos Sunny Day Real Estate; “Misty” parece saída diretamente do EP de estreia dos Linda Martini com os seus ecos de pós-rock e pós-hardcore. Referências certas? Ora.

Podia escrever mais palavras, mas seria um desperdício de tempo. Às vezes, o mais fácil é mesmo dizer: ouçam. Welcome to the World apresenta os Digital Device como uma das bandas mais promissoras deste retângulo à beira-mar. Isso não é engodo – é certeza.

Cucujanense de gema, lisboeta por necessidade. Concluiu um curso de engenharia, mas lá se lembrou que era no jornalismo musical e na comunicação onde estava a sua vocação. Escreveu no Bandcamp Daily, Stereogum, The Guardian, Comunidade Cultura e Arte, Shifter, A Cabine e Público, foi outrora co-criador e autor da rubrica À Escuta, no Espalha-Factos, e atualmente assina textos no Rimas e Batidas e, claro está, na Playback, onde é um dos fundadores e editores.

Rock ruidoso e tumultuoso.

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