O Arraial Feliz de Mafama

Acabei de receber uma chamada onde me convidaram para ir ao arraial que vai haver hoje na cidade. Questiono-me se me irei sentir bem em ir tendo em conta que estou ridiculamente atarefado. Porém, as saudades que já se sentem por aquele tipo de ambiente – tão específico e caloroso –, aliadas à exaustão de olhar para um ecrã de computador, fizeram-me ir tomar banho, vestir, pegar nas chaves, carteira, telemóvel e pôr-me a modos para ir para a dita festa.

No caminho, fico a pensar no que poderei vir a encontrar. Uma festa popular é uma caixa de surpresas. Ora é uma caixa de pandora, ora é uma caixa de sapatos repleta de tralha. Mas sozinho não estarei, o que me deixa mais ou menos confortável para partir nesta aventura.

Encontro-me com os compinchas. Saudamo-nos com os nossos cumprimentos especiais – datados de quando as campainhas escolares ainda ditavam os nossos períodos de confraternização – e metemos a conversa em dia. Marchando até ao local, o cheiro a comida de roulote, que se vai intensificando gradualmente, faz rosnar o estômago. Assim que transponho a entrada, começo a ver bandeirolas triangulares às cores. O coração aquece. Não é déjà vu, mas sinto que já estive aqui. Tudo parece familiar, ou talvez seja só o facto de me sentir confortável.

Deambulo entre mesas e bancas de cerveja, entre crianças a chorar e grelhadores, mirando os preços e exclamando profanidades – merda para a inflação. Vejo sardinhas e caracóis, mas ignoro. “Não me apetece ficar todo sujo”, digo para mim, ciente que não terminarei a noite sem ter, acidentalmente, cerveja a umidificar-me a roupa.

Dirijo-me a um autointitulado rei para me fornecer uma bifana e uma imperial. Com ambas as mãos ocupadas, enquanto degusto a bifana, paira-me na cabeça a pergunta “O que é que será que o Chefe Jamon ia achar disto?”. Percebo que isso pouco interessa, pois desde que esta bifana cumpra o papel de aconchegar a barriga para as cervejas que se avizinham, está tudo bem.

Com a sandes já no bucho é tempo de me aproximar do bailarico. No pequeno palco, um homem adornado por uma camisa aos quadrados, de cigarro na boca e com um copo de tinto pousado ao lado dum teclado KORG sobre o qual faz soar sonantes acordeões computorizados, vai cantando, bem à sua maneira, hinos do cancioneiro popular português. À minha volta, gente de todas as idades e demografias. Sorridentes, mais ou menos experientes, mais ou menos desengonçadas, mas todas com o mesmo propósito. Ninguém sabe quem é o pai da criança, mas todos sabem o que querem fazer: dançar, divertir-se e desanuviar.

O ar emana uma fragrância de diversão, onde as 35 horas de trabalho semanal folgam-se nos despreocupados passos de dança (na verdade, cheira a fumo das sardinhas na brasa, mas permitam-me ser romântico). Do nada, estamos num comboio, daqueles que não fazem greve. À medida que dançamos noite adentro, vamos tendo mais espaço para o fazer, pois o pessoal cansado retorna aos seus aposentos. Sobram os resistentes que volta e meia trincam qualquer coisa e não se fartam de ver o fundo dos copos de plástico de uma das marcas do duopólio de cerveja nacional. Sinto-me inseguro, sentado num daqueles periclitantes bancos, e apercebo-me da minha fadiga. Despeço-me dos camaradas. Uns vêm comigo, outros, valentes e corajosos, permanecem – querem saudar o sol, claro. Ao chegar a casa, preparo-me para os lençóis. Contemplo o teto (às escuras) e rebobino as conversas e galhofas da noite até adormecer. Foi uma bela festa.

*

No passado dia 26 de maio, Pedro Mafama, autor do transversal e explorador Por Este Rio Abaixo, convidou-me para dar um passo em frente do seu precipício musical. Como este já me tinha presenteado bons momentos ao longo dos anos, tanto em canções como “Lacrau” e “Estaleiro” (companheira assídua esta), como ao vivo, na pequena festa que se fez no Palco Magistério do Festival F em 2022, foi sem pensar duas vez que me mandei para esse despenhadeiro.

Quem lê o título do seu mais recente disco, Estava no Abismo Mas Dei Um Passo em Frente, pode achar que representa o risco exacerbado que o artista tomou neste seu mais recente trabalho. As más línguas podem até dizer que este anunciava o seu (suposto) suicidío artístico, mas Mafama, para estes, deu uma de João César Monteiro e mostrou-nos a todos que é um perito no skydive musical.

Se na sua estreia nos longa-duração Mafama mostrava-se melodramático e melancólico, em Estava no Abismo…, por outro lado, chega-nos despreocupado, solto e, acima de tudo, feliz.

Pedro Mafama
Fotografia: Carinho Mio

Já que se falou do nome do disco, falemos então da capa, que descreve muito daquilo que nos traz o artista lisboeta neste seu novo disco. Vemos um bolo (talvez de aniversário?) que se não tivesse estampada uma fotografia, não admirava que lá estivesse um clube de futebol, ou, dependendo da idade, um Faísca McQueen, um Shrek, uma Betty Boop, ou a capa de um dos filmes da Barbie. Ao redor do bolo, que se encontra por cima de uma travessa daquelas frágeis e douradas, temos uma toalha de mesa de papel, típica de tascas e restaurantes com boa qualidade/preço, ou, como quem diz, a maior tela de desenho do “português comum”. Nela conseguimos ler: “Pedro Mafama; música de baile (portuguesa e não só!); feliz com a vida, amigos, família, estrada, realização (sonhos), equipa <3; música de celebração; pop x popular; bailes + rumbas + marchas.” Haverá melhor descrição para este álbum? Não sei, talvez só se contextualizarmos o que este faz sentir. No meio de todos estes bailes, rumbas e marchas, imiscuem-se uns fadunchos e a produção pop experimental de Mafama e Pedro da Linha – suspeitos do costume desta renaissance da música popular lusófona aos olhos digitais; atente-se o papel de ambos em Casa Guilhermina de Ana Moura.

Portanto, se me permitem, eis o que significa (para mim) dar um passo rumo ao abismo de Pedro Mafama:

Nas planícies nas quais vagueamos em busca de paisagens que nos cortem a respiração, volta e meia encontramos esculturas naturais que parecem ter sido esculpidas com a mais prolífica das intenções. Quanto mais se sobe, mais o ar fica rarefeito e mais incerto será a possível existência de continuação para este caminho que teimamos em prosseguir. Esse findar da jornada surge quando, aos pés, se esboça uma ravina, um precipício, um void de nuvens e do que vai para além do olho de um mero mortal. Enfim, um abismo. Num dia normal, em pleno domínio das capacidades intelectuais, teria dado um passo atrás e rumava em sentido contrário. Mas desta vez, fui convidado, por um sujeito ali da Graça, a dar um passo em frente. E foi o que fiz.

Lá fui por ali abaixo, imitando a intro de Mad Men, sem sítio a onde me agarrar, sem meios para me salvar. À medida que vou descendo, vem me surgindo o tal cheiro a festa. A comida, bebida e diversão. Por momentos até me esqueci do meu estado em queda livre. Do nada, aterro. No meio dos Santos Populares. Vem-me tudo à memória.  Bifanas, sardinhas, as crianças a chorar, o álcool, as bandeirolas. Tudo aquilo que é necessário para que se celebre. “Celebrar o quê?”, perguntam. Não interessa! Celebre-se o que quer que seja. A vida já tem demasiada mágoa a si inerente para que não se celebre o pouco que se pode. E é sobre isso que falam as músicas que vão ecoando naquele palco, agora pisado por um “artista de música”: Pedro Mafama.

Enquanto vagueio multidão adentro, ouve-se um corridinho, inter-regional (digamos), onde se exclama que “O Baile Vai Começar”. Toda a gente agarra o seu par e celebra-se: afinal, ainda estamos por cá. E vêem-se sorrisos na multidão, como é evidenciado neste vira orelhudo que é a faixa “Virou!”. Sente-se “Alegria”, pois a “A marcha de hoje em dia / É marchar para a alegria” e que “Marcha Bonita” é esta que Mafama proporciona, onde se celebra o quotidiano português – aquilo que é nosso e popular.

Ao cair da noite, sente-se uma “Estranha Magia”. Os corpos vão ficando mais dançantes e os barris de cervejas rebolam ao serem trocados. É uma boa vida esta que se vive, uma “Vida Airada” que dura até o sol raiar e até termos de nos ver, novamente, sucumbidos ao perpétuo e extenuante dia-a-dia. Quando “Vais a Ver”, dá-se um estalo de dedos e a vida passa, com a velocidade com que se rouba um beijo no calor da noite, ou a forma como vão desaparecendo secretos (de porco preto, acrescente-se) e se vão contando segredos. Tal como no final da faixa “Tudo O Que Foi, É, E Está Para Vir”, no final da noite também se costuma ouvir o choro de bebés – com menos auto-tune –, que levam sempre à reação “Está bêbado de sono”. Talvez esse também seja o meu mal, por isso, acho que está na hora de ir. Não vim só beijar o “Santo”, pois pela minha carteira desnutrida e a minha dança ziguezague, já estou cá há um bocado. Assim me despeço. Mais uma festa! Mais uma bela festa!

*

A semelhança fulcral destas duas festas, sendo a primeira um arraial (chamem-lhe festa da terrinha, se preferirem, daquelas que permeiam o imaginário de verão de muitos locais além dos centros urbanos), e a segunda a experiência de ouvir o disco de Pedro Mafama, é a demográfica que as assiste. Tal como num bailarico se vê desde a criança desdentada ao velhote desdentado, na música de Estava no Abismo Mas Dei Um Passo em Frente escuta-se esta abrangente gap demográfica. Esta é a ode de Mafama à arte de “ser português”. Não ridicularizando, nem tornando pretensioso, Mafama embeleza muita da música popular portuguesa a partir da sua visão multicultural, trazendo uma rajada de ar fresco e atual, ao futuro das playlists de casamentos, bailes e festas da aldeia, ou, por outro lado, aos mais cobiçados festivais de verão e ilustres casas de espetáculos de todo o país.

A homenagem e enaltecimento da cultura popular portuguesa não é coisa recente. Veja-se o caso do universo de David Bruno, Mike El Nite, Conan Osiris, o fenómeno José Pinhal, ou as tentativas recentes de algum mainstream em reproduzir o fenómeno num mundo pós-ROSALÍA. Daqui, surge a acusação de apropriação cultural a Mafama. Porém, eis a questão sempre pertinente: Apropriar-se de quê? Do que também é dele? Do que viveu nas ruas da Graça e do que é facilmente relacionável com qualquer pessoa que tenha crescido em regiões (ainda) não totalmente gentrificadas do território português? Como nas boas festas, há espaço para toda a gente.

Pode não haver espaço literal, mas numa boa festa, toda a gente que vem para criar bom ambiente é bem-vinda. Na música, igual. Toda a gente que vem para criar, é bem-vinda – reforço na palavra criar. E Mafama traz muito do seu génio, tanto de produção, como estético, para este seu novo som. Na faixa “Estrada”, o seu ADN está espelhado na pujante percussão e na exuberância dos traços dos estilos em que este se reforça, que, neste caso, chegam sob a forma de sintetizadores de baile. Ou vejamos a riqueza de “Golo!”, que reúne quase toda a simbologia portucalense, transportando-nos para Alfama, ou para a turbulência do 28. Por outro lado, o disco é acima de tudo uma obra feliz e que quer fazer os outros felizes, como podemos escutar no malhão que é “Preço Certo”.

É evidente que a cultura popular portuguesa tem origens e traços condenáveis, costumes retrógrados e, por vezes, valores que se sabe terem sido instituídos em épocas inglórias da história portuguesa. Porém, festejá-la não significa, necessariamente, que estejamos a celebrar esses mesmos defeitos que nela existem. Mafama fez-lo em Por Este Rio Abaixo, na sua fusão de música portuguesa com traços de vários elementos de outros locais e culturas. Agora, com Estava no Abismo…, o objetivo não se altera – mas a forma como chegamos lá é diferente. Surge via uma certa despreocupação, o despretensioso e mundano, daquilo a que por vezes nos temos de agarrar porque complicada já é a vida. Mas pelo meio destes 37 minutos de Estava no Abismo…, pelo meio da felicidade, Mafama relembra que as preocupações não terminam por aqui – isto é apenas o início, mais um capítulo para continuar. Por mais curta que seja, obter a mais pequena expressão de felicidade é o suficiente para continuar.

Nascido e criado em Faro, divide o seu coração entre as suas duas grandes paixões, o cinema e a música. Aspirante a cientista da comunicação, já passou pelo Espalha-Factos onde foi um dos autores do À Escuta. Conseguem apanhá-lo em festivais de música e em cineclubes!
Artigos criados 16

Pedro Mafama e os seus sons unificadores.

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