uma história de amor por concertos

A certa altura, acordava todos os dias de madrugada para começar a trabalhar antes do sol nascer e recebia o salário mínimo, mas as entradas para as noites que faziam Lisboa cintilar aos olhos dos outros estavam incluídas no salário emocional, como se dançar à borla pagasse contas ao fim do mês. E eu estava esgotada, porque achava que um doutoramento se fazia como um mestrado, e que teria o estofo necessário para conciliar tudo: aulas noturnas, o primeiro autocarro da manhã e os horários trocados, com o inocente jantar de amigos à sexta-feira. Os olhos que se fechavam sem querer, e eu meio tombada, meio enterrada num sofá cheio de malas e casacos empilhados, a tentar devolver os sorrisos de conhecidos. Estar ali para ouvir música ou para mostrar a cara, certificando-me que ainda sabem quem sou, que vão continuar a mandar músicas e a fazer aquele jeitinho quando for para marcar entrevistas. Colunas zumbindo ao fundo da sala ou coladas aos meus ouvidos, tanto faz. Os sentidos atordoados pela histeria dos decibéis e eu sem perceber como acabei naqueles preparos. Talvez a música estivesse demasiado alta, talvez as cortes incessantes encostadas ao balcão do bar não tivessem a magia de outras noites. Não reconhecia em ninguém a vontade real de estar ali pela música. De repente, o choque da primeira vez, atordoada pela vontade de não querer ficar ali nem mais um minuto. Só queria poder dormir, já nada daquilo interessava. Empurrada para festivais de verão – outrora pontos altos da minha relação com a música, por conseguir ver dias inteiros de concertos de nomes que dificilmente encontraria noutros palcos por cá –, acabei atropelada pelo circo das marcas e dos patrocinadores, da multidão que está ali só para as fotos e pelos copos, e já ninguém a querer saber que raio de banda está a tocar no palco secundário, e ao mesmo tempo a nova grande cantora que ainda ninguém conhece oferece o seu refrão às dez pessoas que conseguiram resistir à hipnose dos brindes, manager incluído mas distraído no seu telefone. Toca o cabeça de cartaz, mas para lá da quinta fila do público, as pessoas só conversam umas com as outras, aos berros porque a música abafa tudo, mas como pagaram 200 euros para estar ali, mais vale darem uns empurrões aos vizinhos do lado para tirarem aquela selfie de costas para o palco, a música como pano de fundo de que ninguém quer saber. O vocalista empunha o microfone à espera de retorno, só que já ninguém sabe mais do que um refrão de cor, mas voam corações nas stories, um chorrilho de vídeos de baixa qualidade de toda a gente no mesmo sítio, com a mesma brilhantina esfregada na cara, mas afinal nem conseguiram ver o que mais queriam, porque o recinto estava a abarrotar, e voava cerveja pelo ar que os miúdos de hoje não têm maneiras, e a energia para aguentar até às tantas esgotou-se mais rapidamente do que o previsto, que afinal sexta ainda é dia de trabalho, mas encontrei-te junto aos caixotes do lixo da área da restauração e nem pareceu tão mau.

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A certa altura, o fascínio da adolescência devolveu-me a magia da música pop. Ao lado do meu irmão, comecei a colecionar entradas em concertos de grandes estrelas, daquelas que todos conhecemos mas fingimos não saber quem são quando tocam e estamos rodeados de pessoas se acham, porque quem tem cu tem gosto e claro que o meu é melhor do que o dos outros. Na planície infindável de talentos cujo público tem metade da minha idade, os pulmões da plateia enchem-se de ar para coros que entoam os refrões gastos por milhões de audições no Spotify, mas também os versos escondidos em álbuns que alegadamente já ninguém ouve, e as vozes ecoam muito para lá daquelas duas horas que foram as mais felizes das suas vidas.  E há selfies na mesma, menos cerveja no ar que são demasiado novas e a amargura ainda não é sabor que se queira na língua, mas o protagonismo é de quem está no palco. E a esperança renasce, pós-testemunha de uma devoção que ainda existe, a música como fábrica de emoções, catalisadora de felicidade.

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A certa altura, voltei a ver um bom concerto num grande festival. E foi um dos melhores que já vi. Então, decidi regressar à intimidade de concertos em que o artista finge ser igual a nós, mas na verdade é mais vulnerável. Trezentos quilómetros depois, cheguei ao ZigurFest, pronta para ouvir o disco que salvou a minha vida naquele primeiro autocarro da manhã. De frente para quem o compôs.

O primeiro artigo que escreveu sobre música eletrónica foi para o jornal da escola. Continuou a escrever, passou por uma grande promotora, mas foi na rádio que alimentou a maior paixão. A sua voz atravessou a antena de quase uma dezena de estações, mas teve residência permanente na Oxigénio durante cerca de cinco anos. Mais tarde, fundou o Interruptor. Atualmente é uma das responsáveis pela campanha Wiki Loves Música Portuguesa.
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