Há umas semanas fui lavar roupa à lavandaria do bairro, aproveitando tudo estar praticamente vazio naquela calma idílica de final de agosto. E a verdade é que também a lavandaria do costume estava deserta, com a excepção dum senhor sem-abrigo que por vezes vejo no cruzamento em frente a emborcar a sua cervejinha com o olhar contemplativo de quem já viu tanta coisa na vida que nada o sobressalta.
Só que desta vez o senhor não estava sozinho. Um outro cavalheiro, que tal como eu teve a excelente ideia de despachar tarefas domésticas antes que o calor infernal regressasse, tinha encetado uma animada conversa com ele. Enquanto metia toalhas no tambor da máquina, não pude evitar escutar o que discutiam de forma tão entusiástica. Claro que era música.
Fazendo uma breve pausa para enrolar e acender uma ganza dentro da própria lavandaria (não disse nada, não tenho nada a ver com a vida dos outros e não sou polícia), o senhor relatava com impressionante detalhe aquela vez que viu os Rolling Stones e que até teve oportunidade de falar com eles depois do concerto. O outro indivíduo ouvia-o, olhos brilhantes de fascínio, fazendo inúmeras perguntas que um cínico diria serem testes para se certificar de que aquilo não era apenas uma história fantasiosa de quem já passou por muito e inventa mundos alternativos onde se refugiar. Setlists, locais, lineups—tudo foi escrutinado durante a amena cavaqueira que deve ter durado uma boa meia-hora. No final, o senhor levantou-se, pegou na sua omnipresente lata de cerveja, apertou a mão à sua mono-audiência, e voltou para o cruzamento em frente, sentando-se numa soleira a acabar a sua ganza em paz. Quando saí já não o vi em lado nenhum.
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