No último mês comecei a andar sempre com uma máscara na carteira. Apercebi-me dessa necessidade quando, numa tarde de sol calminha e despreocupada, voltava do supermercado e senti um cheiro familiar ao passar em frente ao liceu. Não havia grande ajuntamento e muito menos comoção; estavam só meia dúzia de caixotes do lixo a bloquear a entrada enquanto um grupo de estudantes conversava mais adiante. No entanto, conhecendo a desproporcionalidade com que a polícia francesa gosta de responder a estas coisas, o meu instinto treinado por doze anos de Paris (completados esta semana) fez com que colocasse imediatamente a t-shirt sobre o nariz e boca enquanto abria caminho pelo meio de dezenas de turistas apalermados e saía daquela rua o mais rápido possível.
O episódio pode parecer surreal, mas não é de todo excepcional. Embora tente evitar chavões como “repressão”, “fascismo”, ou “reaccionário”, aquilo que temos vindo a observar um pouco por todo o lado é uma evidente perda de controlo por parte dum sistema que, ao saber-se moribundo, esperneia com a violência dum bebé birrento. Sem soluções para oferecer a um planeta com os dias contados, agarra-se com unhas e dentes a toda e qualquer réstia de poder enquanto projecta as culpas de forma irracional e aleatória. É a extrema esquerda. Não, são os eco-terroristas. Não não, são os emigrantes. E afinal também são os transsexuais. E a caricatura que surge é a duma criança no pré-escolar que acusa o amigo imaginário de ter roubado a caixa dos doces enquanto lambe os beiços sujos de chocolate.
Eu sei que este não é o editorial mais animador para o regresso da Playback, principalmente quando até temos o coração cheio de todo o carinho que nos deram ao fazer com que a nossa primeira zine quase esgotasse (já sobram muito poucos exemplares!). Mas se a condição humana é feita de contradições, temos de aceitar que os momentos feios e os momentos bonitos co-existem com uma frequência assustadora. Não se deixem engolir pelo abismo, mas também não ignorem que ele cresce a olhos vistos. E lembrem-se sempre que a luta também se faz de ternura.

