Se quisermos debruçar-nos sobre o percurso de Estilo, é necessário reconhecer que há um antes e depois de “Todo Fodido”, o single que lançou em junho de 2025. Foi esta faixa que despoletou a onda de apreciação que o rapper portuense recebeu nas franjas do trap português contemporâneo este ano. Foi um reconhecimento que validou com as suas duas mixtapes FXR Tapes e Antes da Fama, lançadas em março e agosto deste ano, respetivamente. E ninguém sabe melhor disso do que o próprio rapper:

“Eu quando lancei esse som e o meti nas stories… eu curto bué de escrever para o pessoal perceber o que é que se passa aqui deste lado. E eu escrevi: ‘o pessoal não vai entender este som agora, mas eu sei que daqui uns tempos o pessoal vai entender este som’. Porque não é normal, nem é que não é normal… mas eu percebo que a primeira reação do pessoal ao som seja ‘o que é que é esta merda?’”, afirma durante a nossa conversa.

Dito e feito – como Estilo previu, foram precisos uns meses para que a faixa caísse no goto dos fãs mais atentos do underground português. Um ano e quatro meses depois do lançamento de “Todo Fodido”, encontrámo-nos com ele, acompanhado de Xandre. Este último é membro do coletivo Junkie Money, porta-estandarte de uma nova forma de pensar o rap em vista a alargar aquilo que largamente ainda se entende como as balizas do género e da cultura hip-hop. O rapper lisboeta, que já participou em Antes da Fama, conta o momento em que deu de caras com Estilo: “Mano, o “Todo Fodido” foi uma cena revolucionária na minha opinião. Porque nunca nada tinha sido feito daquela maneira aqui em Portugal. E eu comecei a mandar aos rapazes e os rapazes sentiram, sentiram isso duma maneira. E a gente só começou a fechar cenas a partir daí.”

Quando ouvimos a faixa em si, compreendemos porque é que foi esse o caso. “Todo Fodido” é uma música que, à primeira audição, pode ser facilmente descartada como uma piada. Para quem não conhece Estilo, há algo de cómico no single, seja a repetição ad eternum do título da canção no refrão, ou barras como “Usain Bolt eu não sou, eu quero fazer as merdas ao meu tempo”. Mas, ao mesmo tempo, é uma faixa em que o artista demonstra uma sensibilidade musical e um carisma que facilmente deixa ouvintes vidrados, especialmente aqueles que já estão mais familiarizados com a sonoridade trap new wave que surgiu no pós-era dourada do Soundcloud. No entanto, não nos enganemos: Estilo não soa como OsamaSon ou Xaviersobased, e muito menos como Fakemink, EsDeeKid, ou algum dos filhos de Drain Gang. As suas referências são outras: “As minhas maiores referências são o Young Thug e o Future. Todo o pessoal que surge da nova cena, tipo o Fakemink… não são maus, mas todos os flows que foram feitos até agora, o Young Thug e o Future já os fizeram.”

Ao mergulhar na discografia do rapper, notamos facilmente estas influências, especialmente a de Young Thug. Em primeiro lugar, pela forma como se posiciona no beat, imprevisível e por vezes até puxando dos limites rítmicos do flow que a produção pede. Em segundo, pelo seu à-vontade com o uso de falsettos, que se tornou ainda mais proeminente em Antes da Fama, a sua mais recente mixtape. Estilo é uma máquina de fazer refrões, ao ponto de algumas das suas canções serem, fundamentalmente, um refrão na sua totalidade. O rapper aponta um aprofundar na forma como olha para os repertórios das suas inspirações como crucial para o desenvolvimento da sonoridade que começou a apresentar este ano: “Tu para seres matemático tens de estudar o que veio antes. Para fazeres trap, tu tens de saber o que é que o Young Thug, o que é que o Future, o Gucci Mane, o que é que eles estavam a fazer nos seus inícios de carreira.” De qualquer forma, apesar destas duas mixtapes terem saído com poucos meses entre elas, são bastante diferentes, e isso explica-se pelo facto de terem sido feitas em alturas distintas do percurso de Estilo.

FXR Tapes, lançado em março deste ano, foi construído entre o fim de 2024 e a primeira metade de 2025. Muitas das músicas são até anteriores a “Todo Fodido”, e isto está relacionado com a forma algo particular como o rapper olha para o seu ato de criação e como planeia os seus lançamentos. O rapper portuense é um artista que procura mostrar as faixas certas na altura certa, e que acredita estar verdadeiramente na vanguarda do trap. Não deixa de ter razão nisso: a música de Estilo pode ser descrita, de forma resumida, como um aceleracionismo de sonoridades que já existem, mais do que uma criação de algo sem paralelo ou sem lógica clara de evolução em relação a um outro cânone. É uma reinterpretação das componentes sonoras do mumble rap primordial (embora no seu caso, o termo mumble não seja correto para o descrever) levadas ao seu expoente máximo e adaptadas à sua realidade. Ou seja, numa interpretação mais literal do termo “vanguarda”, Estilo parece estar mesmo “à frente” dos seus pares, ao mesmo tempo que tem uma noção muito vincada da sua individualidade enquanto artista.

Mas em FXR Tapes é importante também notar a influência do trabalho de G1lz na produção que, de acordo com o rapper, “percebeu a sua visão naquela altura”.“Quando fiz FXR, aquilo era o que eu há dois ou três sempre quis fazer. Desde que eu comecei a escrever num beat, eu sabia que ia fazer sons assim. E o Gil (G1lz) foi o gajo que deu match. Não queria ser eu a produzir, queria que fosse outro gajo a passar a visão por mim.” FXR Tapes é tanto um projeto de Estilo como do produtor com que o rapper cresceu: advém de uma colaboração que já vem dos tempos de escola, em que faziam beats no quarto de G1lz. Vários dos créditos do produtor no projeto são fruto da partilha e da troca de ideias entre os dois artistas. É também por isso que se sente de forma tão evidente o conforto de Estilo em cima do instrumental, ficando claro que estamos a falar de beats que são muito dele. Tendo o benefício de já ter em mãos a mixtape que serve de sequela a esta, Antes da Fama, é fácil perceber que FXR Tapes funciona como semente para a direção sonora do artista. De qualquer forma, não é um projeto inferior ao mais recente. É apenas mais inconsistente. Apesar de um solavanco ou outro, algumas das faixas de FXR Tapes representam o expoente máximo da essência da criatividade de Estilo, como “Fodase”, “Red Fresco”, ou “Freak it”.

Fotografia: Divulgação
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Em “Freak it” é especialmente notória a versatilidade do rapper no que toca à utilização de variados flows em toda a faixa. É também um dos primeiros exemplos no seu reportório dum verdadeiro conforto em brincar com o seu tom de voz ao longo da mesma. Pode parecer um detalhe insignificante, mas o rapper usou a palavra “cantar” consistentemente durante esta entrevista para descrever a sua presença como MC numa faixa. Este termo, em detrimento de “rappar” ou doutros termos mais ou igualmente usados por um rapper quando fala sobre o seu trabalho, é bastante revelador da sua mentalidade a nível criativo. “Freak it” é um exemplo precoce dessa sua vontade, onde essa sensibilidade para a componente melódica já se demonstra bastante desenvolvida.

“Red Fresco”, por sua vez, vai ainda mais longe no que toca à mudança rápida de flow para flow. Além disso, é talvez o melhor exemplo em toda a discografia de Estilo da diferença dos seus temas em comparação com o que se espera tradicionalmente do trap. Não há aqui um flex sobre bebidas caras, e sim um refrão onde o ponto central é tinto fresco, barato, “rasca”. Não deixa de ser curioso que, num género onde a ostentação é tão presente, Estilo muitas vezes escolha falar de temáticas que não sejam propriamente aspiracionais: “Os meus sons são sempre a contar merdas do que se passa. Tu consegues perceber muito de mim pelos sons.” Finalmente, em “Fodase”, não só vemos o aprofundar das valências presentes nas duas outras canções, como temos também aquilo que é, literalmente, um refrão com 3 minutos de duração. “Fodase” podia ser a referência para “refrão” num dicionário. É uma canção ridiculamente orelhuda, mas sem deixar de ser extremamente particular e pessoal. Até à data, é uma das canções que melhor o define, e será difícil não ter a letra completamente decorada depois de três ou quatro audições.

Antes da Fama, no fundo, é uma consolidação da sonoridade presente em FXR Tapes, embora com outras condições subjacentes: “Faço um paralelo entre FXR, Antes da Fama, e a mixtape que tou a fazer com o ph que é a #NOVA MODA.FXR fala da minha vida de dia, do que me acontecia de dia, Antes da Fama é bué sobre cenas que se passam durante a noite, e #NOVA MODA com o ph já é tipo às 6 da manhã. Mas é porque a minha vida caminha para isso.” Isto não é dito só da boca para fora, nem é apenas percetível nas letras de Estilo. A própria produção e as escolhas do rapper em relação aos produtores com que colaborou aqui, BloodyFranko, Lima e Dias, refletem essa alteração no foco temático das faixas, e simultaneamente da vida do rapper. As canções colocam-se, pelas palavras do autor, no imaginário da “festa”, ao invés do “hustle”.

Além desta mudança de foco, Antes da Fama é uma mixtape já mais polida, em que as experiências que correm menos bem em FXR Tapes atingem aqui uma outra dimensão. Olhe-se para o exemplo de “Grande Porca”, que contém em si vários registos extremamente distintos, mas que são conectados com uma mestria impressionante para um rapper que apareceu em público há tão pouco tempo. Até se pode descrever a faixa como relativamente experimental, principalmente pela delivery quase esganiçada do refrão, que faz lembrar vagamente o squeak rap de 645AR. Ou, em vez de “Grande Porca”, atente-se em “Umas Tochas”, com um beat que puxa pelos limites da distorção, até para os padrões do rage, em que os 808s volumosos são completamente domados pelo arrojo da presença de Estilo no microfone. Poderíamos dissecar praticamente todas as faixas do projeto e debruçar-nos sobre as suas valências particulares, tanto em comparação a FXR Tapes como ao resto do output do trap português de forma geral. É em Antes da Fama que Estilo se torna realmente dono do seu próprio som, e onde demonstra que está muito próximo do teto daquilo que é a sua proposta. No fundo, ouvir este projeto dá-nos a sensação que estamos a ouvir o futuro do subgénero no presente. O próprio já o apregoava em “Não Encontras Nos Saldos”, de FXR Tapes: “Esses flows que eu mando, eles só vão apanhar em 3030 e tal”.

Estilo desde cedo demonstrou acreditar nessa premissa: ele está a fazer o futuro agora. Aliás, a própria escolha do seu nome é reflexo disso, tendo sido mudado, no início de 2026, de 4everturnt para o seu alter-ego atual: “Eu pensei no Future, porque tu para veres o que vai dar certo, tu tens de ir ver o que já deu certo. E o Future, ele teve essa cockyness de se chamar Future, ‘eu sou o futuro’, ‘tás a ver? E ele é mesmo o futuro, tu vais ouvir as cenas dele de 2014, e aquilo era mesmo o futuro.” O nome Estilo segue a mesma lógica, com a camada adicional do interesse do rapper pela moda. É isso que nos leva ao seu próximo projeto, que ainda sairá este ano, #NOVA MODA, em colaboração com o produtor ph, membro da Junkie Money, e Lima, já presente em Antes da Fama.

“[#NOVA MODA] é uma cena que retrata a atualidade do trap. Referências como o Teezus, menciono o Diamond porque é o tropa do Teezus, e o Pz’, mas principalmente o Teezus que eu tenho ouvido bué. E o ph consegue retratar a cena… não é a cena do Teezus mas é uma cena uma beca alternativa a partir da cena dele. Basicamente nos últimos 3 meses só fiz sons em beats do ph. A produção do ph é a atualidade.” Estilo olha para este projeto como um verdadeiro passo em frente, de uma forma que Antes da Fama não foi necessariamente: “O #NOVA MODA vai ser mesmo uma cena… não tou à espera que o pessoal apanhe tudo, tou só à espera que o pessoal entenda o que se está a passar.”

Há um detalhe que se revela bastante curioso em relação a esta aparente planificação do rapper em relação ao seu trabalho. “Eu não escrevo, mano. É sempre freestyle. Tudo o que eu faço é freestyle, é improviso. Nenhum do pessoal que eu ‘tou a dizer aqui escreve letras. Lá está, eu vejo entrevistas a malta que não escreve, tipo o Young Thug, e o pessoal fica tipo ‘mas não escreves?’ Por isso é que eu te digo que isto é mesmo uma cena real, porque eu tou a dizer as cenas que me vêm à cabeça, que se passaram. Normalmente é as cenas que se passaram na última semana, nas duas últimas semanas. É tudo pá pá pá pá, não há letras.” Apesar do rapper admitir que o seu processo passa também por apontar frases, pequenos recortes da vida que se passa à sua volta, seja algo que ouviu de alguém a passar por si na rua ou frases ditas por amigos ou desconhecidos de ressaca, a sua mentalidade em estúdio é relatar aquilo que lhe aconteceu nos últimos dias e que está na sua cabeça. O trap para ele não é algo que envolva “estudar”, porque dessa forma Estilo acha que “já passas para uma cena que se calhar tu nem és isso, se tens de fazer esse esforço todo.” O rapper sumariza o género, em contrapartida, nestas palavras: “O trap é tudo sobre seres um ressaca mascarado.”

Fotografia: Divulgação
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Estilo, já em FXR Tapes mas particularmente em Antes da Fama, afirma-se como uma figura de liderança deste novo movimento de trap experimental que tem ganho relevância no nosso país ao longo de 2026. Por culpa de um ecossistema que ainda conta com poucos projetos e artistas, poderá haver tendência a colá-lo tanto a expressões que partem de referências em quase ou nada similares ao seu som, como a uma vertente trap menos particular ou própria, mais como uma “cópia” do que se passa lá fora. Entre essas duas mentalidades, mais fáceis de categorizar seja pela completa rejeição dum seguimento do som trap ou pela semelhança com projetos anteriores do subgénero, existe o rapper portuense e, verdade seja dita, grande parte dos artistas de Junkie Money: “A Junkie Money não é só o ‘novo kuduro’”, Xandre aponta. Estilo, e artistas como Xandre, KEITA ou ukiyø, têm de forma muito clara na sua cabeça onde foram buscar as suas munições para criar as suas respetivas sonoridades, que só porque estão próximas não significa que percam nuances únicas e próprias. São todos artistas com vontade de experimentar a partir do trabalho que os captou no passado e que os capta agora. Através de contínua colaboração, que já demonstram ter vontade de fazer, é difícil dizer o que os pode parar a não ser uma falta de sensibilidade por parte de um público mais generalizado para se aperceber das nuances que os distinguem da produção trap nacional que já existe. Estilo acredita genuinamente que “a nossa melhor música ainda ‘tá para acontecer”. Quando lhe damos uma verdadeira oportunidade, é difícil contrariar esta impressão.

Conversar com Estilo faz com que seja impossível não relembrar a forma como FXR Tapes termina. A última faixa, “FXR”, é um instrumental de G1lz pontuado por pequenos snippets gravados durante a criação do álbum, e em reação ao mesmo. Há um desses trechos que ressoa particularmente, tendo em conta o contexto do trabalho que o rapper tem vindo a desenvolver: “FXR Tapes mudou o momento. Quem ‘tá a apanhar, ‘tá a apanhar, quem não ‘tá a apanhar, irmão, apanhasse. Talvez apanhe com o tempo.” Não há melhor forma de descrever Estilo nesta fase. Não há dúvidas de que muitos  irão estranhar a sua sonoridade. Só o tempo dirá se a sua música se irá entranhar no imaginário do trap português. De qualquer forma, esta é, a par do Novo Kuduro e do trap com bases na internet culture da cruzcore, uma verdadeira lufada de ar fresco na cultura hip-hop portuguesa. Com estes nomes, e aqueles que virão a aparecer, estamos bem entregues.

Um melómano que cresceu a ouvir a Radar e rap tuga. Dividindo o seu tempo entre a produção cultural e o jornalismo musical, foi fundador do Coletivo Tosta Mista e fez parte da equipa da Punch Magazine, além de ter assinado textos para a sua plataforma online. Atualmente, encontram-no na Rimas e Batidas, e nos recantos do circuito cultural lisboeta.
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