Carte Blanche a Rita Onofre

Tenho vivido a minha vida adulta toda à procura do equilíbrio entre o que amo fazer e conseguir ser uma contribuinte funcional. Como qualquer demanda, esta procura tem dias bons e dias maus. 

A Música é uma coisa íntima e pessoal. Mesmo que toda a gente o faça – há pouca coisa tão pública. Não sou só eu que o digo, perguntem a quem faz as músicas que estão nos vossos ouvidos ou a quem canta na rua. Não interessa. Fazer música – tocar ou compôr – é algo muito íntimo. 

Na minha cabeça passa-se assim: a Música é de todos, sim, mas é minha. E na minha infância, conhecer uma outra criança que ia para casa cantar era divertido, sim, mas eu sentia que mesmo assim aquela pessoa não percebia. Não sente a música como eu sinto, peço desculpa, não sente. Diverte-se, sim, gosta de cantar bem, sim, mas não entende esta ligação visceral. Este colo brutal, esta renovação de humores. Enfim. 

Agora tentem ligar isto à segurança social. É entretenimento forte, para os meus pais especialmente. 

Tive muitos e diversos trabalhos, emigrei e lá no meio cedi a dar aulas de música. Iniciação, não só porque sou má aluna, mas também porque não vou nunca suportar dar aulas a músicos pretensiosos que querem ser famosos e para quem a música é um meio para um fim. E isto é, sim, porque eu sou um ser moralmente irrepreensível. Ao fim e ao cabo comecei a dar aulas pela força da necessidade. 

E assim tem sido.

Tantos dias em que já me senti perdida e encontrei-me a dar aulas. No acto de dar aulas, volto a sentir-me eu. Encontro-me a desmontar o conceito em partes para reconstruir no formato em que aquela pessoa vai compreender. A receber as dúvidas e desejos de quem quis colocar-se ali, à minha frente. E sabe-me bem porque há um encontro enorme de paixões. Não interessa a idade, não interessa o talento: há uma língua em comum. Não passa por pautas, inversões nem dedilhados. Passa pelo entusiasmo, pela simplificação daquilo que parece complexo. Como quem passa uma vida a comer leite-creme e um dia descobre a receita. 

Dar aulas tem-me dado centro. Uma meditação de cada vez, em que a respiração é a pessoa à minha frente mas aqui entramos em todos os pensamentos.

Adoro dar receitas. Que maravilha.

Escuta BRUTA, o mais recente álbum de Rita Onofre, abaixo.

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