Tenho passado as minhas noites, mesmo antes de me deitar, a ler Os Despossuídos, anarco-romance utópico de uma autora que vai escalando a lista dos meus favoritos: Ursula K. Le Guin. Foi a minha namorada que me introduziu à sua obra e só lhe posso agradecer por isso.
Uma passagem do livro chamou-me a atenção. Num diálogo de flashback entre Shevek, personagem principal, e os seus camaradas, quando eram adolescentes, este dizia-lhes:
“Sofrimento é a condição na qual vivemos, e quando aparece, tu sabes. Tu entendes que isso é a verdade. Claro que é correto curar doenças, prevenir a fome e a injustiça, mas nenhuma sociedade pode alterar a natureza da nossa existência. Não podemos prevenir o sofrimento. Algumas dores, sim, mas não A dor. (…) Todos nós iremos entender o que é essa aflição”.
Penso nesta citação para tentar encontrar paz sobre a realidade que nos rodeia e sobre a esperança que é necessária para criar um mundo melhor. Diferente.
A experiência humana, tão valiosa e que muitos parecem querer aniquilar, é algo que nos devia unir. O sofrimento e o pesar são o lembrete de que a nossa realidade é a experiência de existir com o outro. Um camarada morto pesa-nos na consciência, mas serve como lembrete de que existe algo maior do que nós pelo qual temos de – e devemos – lutar. Só ao nos encontrarmos em contacto com as múltiplas dimensões do que pode ser a realidade comum é que podemos encontrar um caminho daqui para a frente.
No final desse capítulo, Shevek dizia aos seus amigos:
“Estou só a tentar entender o que é a camaradagem a sério. Ela começa na dor partilhada”.
Choremos, então, aqueles que partem sem ter razão de partir, mas não os esqueçamos. Encontremos consolo em saber que a luta não termina com as lágrimas. Porque onde termina esta jornada, nenhum de nós sabe. E aceitar isso também faz parte deste ciclo que é a vida.

