Editorial #61

Tenho passado as minhas noites, mesmo antes de me deitar, a ler Os Despossuídos, anarco-romance utópico de uma autora que vai escalando a lista dos meus favoritos: Ursula K. Le Guin. Foi a minha namorada que me introduziu à sua obra e só lhe posso agradecer por isso.

Uma passagem do livro chamou-me a atenção. Num diálogo de flashback entre Shevek, personagem principal, e os seus camaradas, quando eram adolescentes, este dizia-lhes:

“Sofrimento é a condição na qual vivemos, e quando aparece, tu sabes. Tu entendes que isso é a verdade. Claro que é correto curar doenças, prevenir a fome e a injustiça, mas nenhuma sociedade pode alterar a natureza da nossa existência. Não podemos prevenir o sofrimento. Algumas dores, sim, mas não A dor. (…) Todos nós iremos entender o que é essa aflição”.

Penso nesta citação para tentar encontrar paz sobre a realidade que nos rodeia e sobre a esperança que é necessária para criar um mundo melhor. Diferente. 

A experiência humana, tão valiosa e que muitos parecem querer aniquilar, é algo que nos devia unir. O sofrimento e o pesar são o lembrete de que a nossa realidade é a experiência de existir com o outro. Um camarada morto pesa-nos na consciência, mas serve como lembrete de que existe algo maior do que nós pelo qual temos de – e devemos – lutar. Só ao nos encontrarmos em contacto com as múltiplas dimensões do que pode ser a realidade comum é que podemos encontrar um caminho daqui para a frente.

No final desse capítulo, Shevek dizia aos seus amigos:

“Estou só a tentar entender o que é a camaradagem a sério. Ela começa na dor partilhada”.

Choremos, então, aqueles que partem sem ter razão de partir, mas não os esqueçamos. Encontremos consolo em saber que a luta não termina com as lágrimas. Porque onde termina esta jornada, nenhum de nós sabe. E aceitar isso também faz parte deste ciclo que é a vida.

Cucujanense de gema, lisboeta por necessidade. Concluiu um curso de engenharia, mas lá se lembrou que era no jornalismo musical e na comunicação onde estava a sua vocação. Escreveu no Bandcamp Daily, Stereogum, The Guardian, Comunidade Cultura e Arte, Shifter, A Cabine e Público, foi outrora co-criador e autor da rubrica À Escuta, no Espalha-Factos, e atualmente assina textos no Rimas e Batidas e, claro está, na Playback, onde é um dos fundadores e editores.
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