De Mike El Nite a Smorra, porque é que o hip-hop tuga se transformou num meme?

Há alguns dias, a Tranqui.low publicou no seu Instagram um excerto do documentário Nu Bai: Lisbon’s Black Rap (o documentário pode ser visto no Youtube). Escutamos Xullaji, há duas décadas (o documentário data de cerca de 2006), a afirmar: “Estão a querer tirar o hip-hop das ruas e metê-lo nas televisões, nas rádios, mas é tudo branqueado, cheio de lixívia. (…) Querem-lhe tirar aquela vertente de intervenção e reivindicação”.

Não sei se Xulladji ainda se revê nestas suas palavras, mas, dado o seu histórico artístico e político recente (tanto como Xullaji como prétu), tenho quase a certeza que sim. Afinal, a “Revolução Não Vai Ser Um Tweet”, afirmou há uns anos numa das canções mais mirabolantes de xei di Kor.

Tenho pensado nessas suas palavras à medida que tento encontrar na minha cabeça o raciocínio certo para escrever sobre o estado recente do hip-hop em Portugal. Aquele hip-hop de que Xullaji falava, o “real hip-hop”, ainda existe? O hip-hop consciente da sua classe, sem medo de amedrontar o sistema e de colocar o dedo na ferida. O hip-hop que celebra a cultura negra (onde nasceu, em Harlem) e que não tem medo de falar de capitalismo, racismo e injustiça social. Esse é o hip-hop de que Xullaji falava naquele clipe; mas esse não é bem o hip-hop que se transformou na máquina pop dominante em Portugal.

Nos últimos meses, tenho observado alguns fenómenos tornarem-se a “próxima” grande cena do hip-hop em Portugal. São fenómenos bem distantes do hip-hop de intervenção de que falava Xullaji, e bastante próximos – até descendentes – daquilo que se tornou a escola do hip-hop tuga nos últimos anos em Portugal. Uma que é dominada pela pós-ironia, pela cultura da ostentação, pelo culto do eu e, em grande parte dos momentos, por uma versão bastante “lavada” e esbranquiçada (quiçá até colonialista) daquilo que General D e outros tantos nos apresentaram nos primórdios do género em Portugal. Alguém teria a coragem de afirmar hoje que “Portukkkal é um Erro”, como fez General D em 1994? Duvido.

Com isto, não estou a querer afirmar-me como purista do género – não me chamo Samuel. O que quero refletir aqui é mais profundo. A minha questão é a seguinte: porque é que todos os novos artistas relevantes do hip-hop têm gimmicks? Claro que este fenómeno não se cinge apenas ao hip-hop em Portugal; um outro exemplo é o metal pesado, onde nos últimos anos se tem propagado uma quantidade absurda de bandas mascaradas e “misteriosas”: os Ghost, os Sleep Token, os President, os portugueses Gaerea, os Castle Rat. No “rock”, bandas como os Angine de Poitrine também são mais artimanha (devido às fatiotas) do que outra coisa. Até na criação de conteúdo – e enfatizo o uso desta palavra nesta frase  – parece que tem de existir sempre um truque qualquer, como comer asas de frango picantes (excelente formato de entrevista e excelente entrevistador, diga-se), ter um date numa loja de frango, ou comer um beatoque (chega de romantizar tascas, por favor). Tudo tem de ser algo e, consequentemente, transforma-se em nada. É um vazio ambulante sem direção a futuro algum.

Nos casos musicais, não importa se a música é “boa” (até porque é sempre subjetivo), e sim que estes artistas que estou prestes a enumerar tenham todos um grande trabalho de imagem e, em alguns casos, até de mistério envolvido. No que diz respeito ao hip-hop tuga, a lógica é esta: capuchos colocados, gorros enfiados na cabeça, identidades escondida;. sotaques bem definidos e músicas povoadas de referências à cultura meme da Internet e a pastiches locais que encheriam de orgulho David Bruno. Fazem a música que a vossa baddie favorita (possivelmente a Mia Fernandes ou a Bruna de Magalhães) gosta e mete nas stories e no TikTok. Neste cantinho da Internet, já falamos sobre vanish shawty e a “cruzcore”; agora, falamos de Espama Trincana e da SMORRA, uma editora/coletivo do qual fazem parte Isak, Zigarro, Armando Teles, Basílio Teles e o produtor Vítor Hugo. Curiosamente, já colaboraram quase todos entre si: vanish shawty com Espama Trincana em “FASHION WEEK”, e Espama Trincana com membros de SMORRA em “Calipo de Cerveja”. Para quando vanish shawty ft. SMORRA?

Podemos encarar esta era do hip-hop tuga como o pós-Chico da Tina. Em 2019, quando Chico da Tina surgiu com Trapalhadas, teria sido rebuscado prever que seria este o seu impacto. A longevidade da sua gimmick e a popularidade da sua música revelaram-se muito além do que o próprio alguma vez pudesse adivinhar ou imaginar. Todavia, o momento em que Chico da Tina surgiu agiu como clímax de múltiplas coisas que tinham acontecido ao longo da década anterior.

O prelúdio efectuou-se com artistas como Macacos do Chinês, PZ, Mike El Nite e David Bruno e o seu Conjunto Corona, que abriram as portas para a exploração kitsch daquilo que era visto como “fatela” e “brega” (adoro esta expressão). A “contratação” de Mike El Nite pela Think Music, editora criada por ProfJam com a ajuda de João Maia Ferreira (na altura conhecido como benji price) e do manager Nélson Monteiro, terá sido um dos passos definitivos para preparar a explosão que se seguiria. O sucesso de “Dr. Bayard”, canção onde o autor de “Mambo Nr.1” se juntou a Fínix MG e Sippinpurpp (alguém cuja influência também paira sobre esta nova geração), revelou-se como a abertura de portas para esta era hiper-referencial do hip-hop tuga. Corria o ano de 2018, um ano antes de Chico da Tina lançar Trapalhadas e Minho Trapstar.

De lá para cá, muito aconteceu. A Think Music encerrou atividades durante a pandemia da COVID-19 e a “nostalgia” pela identidade sonora e visual da editora já paira por quem viveu essa era. Grande parte desta nova geração é, sem dúvida, também descendente de ProfJam e companhia: possuem um modus operandi semelhante à Think Music ao incorporarem nas suas personas uma estética visual que se torna, neste caso, no seu maior ponto de venda. Um estereótipo.

Antes de se tornar parte da máquina da Sony de Gonçalo Afonso, Espama Trincana possuía uma estética mais próxima do deep fried dos confins da Internet, assim como uma abordagem muito humorística à sua arte. Mais do que ser a “versão Gen Z de Sandro G”, como lhe chamou Ricardo Farinha no Ípsilon, a música do artista açoriano estava perdida entre o hyperpop e o hip-hop, um pouco à imagem dos trabalhos que o trapper portuense Kenny Berg lançou mesmo antes da pandemia. Gostaram da sua interpretação do clássico dos 4Taste (“As Folhas Já Não Caem”)? Preparem-se para ouvir Espama Trincana cantar a música de Phineas e Ferb na “Intro” da algo entusiasmante Espamah Montana, a Mixtape (2025). É nesse disco onde encontramos os últimos resquícios do Espama que começou a fazer furor nas secundárias dos Açores em 2021 com malhas como “Seat Ibiza”.

Nos seus dois mais recentes lançamentos deste ano, Bad Bitches Ouvem Espama, A Mixtape e Bad Bitches Ainda Ouvem Espama, a Mixtape, parte do universo sonoro que tornava a sua música interessante é deixado um pouco de lado, sendo substituído por algo mais próximo do hip-hop estilo Van Zee. O “Sauce” de Sippinpurpp transformou-se em “’tar com a shawty e uma ganza num Ibiza?”, como enuncia o açoriano em “Karina”, uma das canções da primeira mixtape que lançou em 2026.

No caso de SMORRA, o juice é diferente. À boa maneira do hip-hop portuense, de onde são oriundos os seus membros, a sua sonoridade aproxima-se mais de um boom bap que tanto deve a Mixtakes de Profjam como aos lançamentos da Biruta Records. Se Ricardo Farinha afirmou que Espama Trincana é o Sandro G da Gen Z, podemos dizer que SMORRA são o Conjunto Corona da Gen Z (nota: o autor não concorda muito com isso porque acha que a música de SMORRA não é psicadélica o suficiente para ser comparada com Corona). Há imensas punchlines sobre a cultura noturna portuense, pintadas com referências humorísticas a bombas de gasolina e Seat Ibizas que bem podiam estar presentes na discografia de dB, Logos e Homem do Robe. E, tal como Conjunto Corona ou Chico da Tina, algumas das barras sobre mulheres caem inevitavelmente num poço de misoginia e objetificação do sexo feminino. Nada que surpreenda quando nos lembramos que, em “Mambo Nr. 1”, Mike El Nite disse “Violo a tua bitch mas em modo correto”. Nada se perde e nada se transforma.

Há algo mais que une estes artistas todos. vanish shawty é agora distribuído pela Virgin (subsidiária da Universal); Espama Trincana faz parte do catálogo da Sony Music Portugal. E a música dos membros de SMORRA tem distribuição da Warner. Ou seja, cada um destes artistas, capazes de colaborarem entre si, é distribuído por uma multinacional diferente. É curioso, mas significa que os “olheiros” de talentos das editoras estão de olhos bem postos no TikTok e nos sons que vão encontrando eco no público mais jovem. Contudo, porquê esse eco?

Esta música de que estamos aqui a falar não é feita por aqueles – nem para aqueles – que criaram o hip-hop. As condições materiais que representa não são aquelas sobre as quais falaram General D, Xullaji ou LBC Soldjah. Ao invés, os seus criadores são (na sua maioria) jovens de classe média branca a fazer música para jovens de classe média branca. O sotaque que utilizam transformam-nos em estereótipos andantes de um hiper macho lusitano que “até é engraçado” e “saca umas bitches”. A linha entre a paródia e a sinceridade nunca foi tão complicada de discernir.

Por outro lado, o que significa homenagear hoje? Dos “desfados da nova pop” de Conan Osiris à obsessão pela “portugalidade” que culminou no pesadelo providenciado pelos D.A.M.A ou pelos Vizinhos, é muitas vezes música absolutamente patética e bafienta e, em vários casos, recheada de estereótipos até dizer chega. As barras meio engraçadas sobre Viana do Castelo (no caso de Chico da Tina), sobre o Grande Porto dos SMORRA, ou ainda a componente meme das canções de Espama Trincana estão muito mais próximas da afirmação dos Vizinhos de que “Se achas Lisboa grande, o Alentejo ainda é maior” do que alguém quererá algum dia admitir.

Porque este é o grande problema de quando toda a música se reduz a memes e a estereótipos. “Ai, que sotaque engraçado tem este gajo do Porto”, dirá um beto de Lisboa. “Que fixe é gritar Gondomar e Mafamude!”, dirá outro tipo que nunca meteu um pé na periferia do Porto sem ser para encher o depósito a caminho de Paredes de Coura. Tudo se transforma em algo fácil de romantizar, mas que não é passível de ser compreendido. Os olhos de Lisboa, como sempre, permanecem virados para o resto do país como se fossem todos um monte de patetas para entreter a metrópole com os seus sotaques, palavrões e brejeirices. Que engraçado!

O resultado é bem resumido pela carreira até então de Chico da Tina. À medida que foi crescendo em popularidade, tornou-se numa paródia dele mesmo, capaz de fazer números e gerar patrocínios, mas sem ser capaz de voltar a lançar música interessante. E o mesmo pode ser dito de David Bruno. Com o passar do tempo, aquilo que fazia a sua música de entusiasmante em O Último Tango em Mafamude (2018) e Miramar Confidencial (2019) evaporou-se. Quando lançou Paradise Village, em 2024, já a faísca se havia perdido (mas há esperança que volte a encontrá-la). Da última vez que o vi ao vivo, apesar de contente pelo seu sucesso, não consegui deixar de pensar que tudo teria sido melhor se a sua música tivesse ficado apenas como segredo de alguns. E quanto menos falar de Mike El Nite, melhor. Até João Não (ele que também começa a ter alguns filhos, como é o caso de Rodrigo 13), a olhar para a qualidade dos seus mais recentes lançamentos, parece ter perdido algum do sumo musical que apresentou nos tempos de Terra-Mãe (2021).

Quem garante que o mesmo não vai acontecer à música de Espama Trincana, vanish shawty (o menos popular deles, é certo) e SMORRA? Numa era em que tudo se move rápido e as tendências desaparecem e aparecem num estalar de dedos, transformar a sua música para apenas servir uma estética através da sua “memeficação” kitsch é no mínimo parvo e no máximo perigoso. Mas o zeitgeist parece ser este: música brega, inofensiva, que não reivindica nem intervém. Este é o estado do hip-hop tuga. O Xullaji tinha razão.

Cucujanense de gema, lisboeta por necessidade. Concluiu um curso de engenharia, mas lá se lembrou que era no jornalismo musical e na comunicação onde estava a sua vocação. Escreveu no Bandcamp Daily, Stereogum, The Guardian, Comunidade Cultura e Arte, Shifter, A Cabine e Público, foi outrora co-criador e autor da rubrica À Escuta, no Espalha-Factos, e atualmente assina textos no Rimas e Batidas e, claro está, na Playback, onde é um dos fundadores e editores.
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