Chorar é vencer: a magia de “Goodbye to Love”

Por vezes, custa-nos admitir que o melhor que podemos fazer é parar, mudar, seguir em frente à procura de algo melhor e excitante ou simplesmente abanar a bandeira branca e dizer: “Isto não é para mim”.

Karen Carpenter, na sua voz angelical, canta essa mesma frase. Dizer adeus a um amor nem sempre é fácil mas, por vezes, é o melhor a fazer. E se o conseguirmos fazer tão bem como canta Karen em “Goodbye to Love”, escrita e composta em parte pelo seu irmão Richard, a coisa torna-se mais fácil.

Ódio de estimação de toda uma geração (como o João Bonifácio tão bem descreveu), esta canção não destoa muito do som típico da banda que vendeu que nem pães quentes nos Estados Unidos na década de 70. Para além da voz de Karen, a faixa vive do piano e dos coros de Richard, dos oboés e tons orquestrais do pop rock suave e de produção limpa e absolutamente clara.

Mas algo destoa. Enquanto o sujeito poético promete continuar a viver como conseguir mesmo com o amor finalmente perdido, rebenta por breves segundos um corpo normalmente estranho no estilo adulto e easy-listening da banda: um fuzz de uma guitarra tímida num solo esmigalhado no meio da canção que serve de combustível do foguetão que começa a arder para levantar vôo.

Aparentando regressar ao seu estilo calmo, uma urgência invade o som de “Goodbye to Love”. E o abrandamento pós-solo revela-se como retrocesso das águas antes do tsunami. As últimas estrofes da canção deixam uma esperança para o sujeito poético. Admite que pode mudar de ideias e que ninguém sabe onde é que “a roda da sorte pode parar”.

Porém, por agora, Karen diz mesmo adeus ao amor, e quem volta a dizer olá aos nossos ouvidos é aquela deliciosa guitarra. E desta vez a chama arde forte e o fuzz já não é tímido. É o coração da canção e eleva “Goodbye to Love” aos céus da música e de tudo o que é sagrado. Quando um acidente divino criou o fuzz e deu à luz o rock moderno nos anos 60, certamente não seria de esperar que seria usado de forma gloriosa por uma banda vista como leite morno.

Na sua biografia de Karen Carpenter, cantora cujo sofrimento interno levaria à sua morte por anorexia nervosa em 1982, Randy L. Schmidt conta que o impacto do solo do guitarrista Tony Peluso foi tal que levou a que os Carpenters recebessem cartas de ódio dos seus fãs mais conservadores – irónico pensar que cantar o adeus ao amor lhes tenha trazido esse sentimento tão no polo oposto.

“Goodbye to Love” é tristeza com esperança. É perceber que desistir abre portas a novas vidas, a novas possibilidades. Chorar pode ser catártico. Que todos tenhamos um solo de guitarra para nos elevar à estratosfera de novo.

Nasceu e cresceu no Seixal, onde lhe passaram-lhe a Clint Eastwood dos Gorillaz por bluetooth e a sua vida nunca mais foi a mesma. Jornalista de profissão, passou pelas redações do Público e do Observador, onde experimentou escrever sobre música, que adora ouvir e ver ser tocada
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