Do que é que o mundo precisa? De Fred again..

O meu fascínio pela música vem de muito cedo, mas isso é uma história que podem ler num outro artigo que já escrevi por estas páginas. Para agora, importa partilhar que sempre consumi uma grande variedade de géneros musicais, e ainda hoje o faço. Não quero com isto dizer que tudo o que ouço me agrada. Gosto simplesmente da ideia de conhecer e explorar sonoridades e dinâmicas diferentes. Isto é quase que inexplicável para mim, mas agrada-me pensar na unicidade de cada artista que ouço e como [estes] conseguem expressar-se musicalmente de formas tão distintas, mas igualmente válidas. É mesmo bonito. Contudo, sempre houve um estilo que permanecia em segundo plano: música electrónica. Ouvia falar em techno, trance, drum & bass, dubstep, house, etc, mas não sabia distinguir – nem me interessava, para ser sincera. “Sons barulhentos sem sentido nenhum”, dizia eu. Permitam-me dizer que a minha vida mudou quando comecei a ouvir falar de um tal de Fred again.., coincidindo com a divulgação da sua mágica Tiny Desk. Desde então, ouço-o assiduamente, sendo que, hoje em dia, é possivelmente o meu artista favorito de todos os tempos. Fez-me quebrar esta barreira que existia entre mim e a música electrónica ao apresentar-me um universo de sons hipnóticos e alucinantes aliados a uma sensibilidade nunca antes vista.

Podia trazer-vos um álbum ou um EP qualquer de Fred e falar-vos sobre ele, mas não quero, de todo, que isto soe a uma mera crítica. Frederick Gibson poderia ser apenas mais um nome do panorama musical, mas não é. Frederick Gibson vai além de tudo e mais alguma coisa. Quero, portanto, que isto soe a uma ode a um artista cuja magistral habilidade reside em direcionar a complexidade das emoções humanas em cada obra artística que cria.

Entre 2020 e 2022, lançou quatro colectâneas de temas – o EP Actual Life e os LPs Actual Life (April 14 – December 17 2020), Actual Life 2 (February 2 – October 15 2021) e Actual Life 3 (January 1 – September 9 2022) -, em forma de diário. Pelo meio, uns singles, umas quantas colaborações e, em 2023, deitou cá para fora USB e um álbum colaborativo com Brian Eno, Secret Life (este homem é uma autêntica máquina!). Fred recorre muito a samples de vozes, retirados de recolhas feitas pelo próprio – desde encontros do seu dia-a-dia, sessões de songwriting com artistas ou vídeos aleatórios de amigos -, e samples de outras canções. Escolhe a dedo as vozes e as frases ideais para servirem de base aos seus temas, usa e abusa da repetição, brinca com os bpms como só ele o sabe fazer, culminando numa quantidade absurda de clímaces emotivos e catárticos que nos aliciam a querer levar uma vida inteira a sentir o que há para sentir e a dançar sempre que possível. E não é assim que é suposto ser o mundo?

Impossível não sentir senão vulnerabilidade e amor ao ouvir “Kyle (i found you)”, “Dermot (see yourself in my eyes)”, “Billie (loving arms)” ou “adore u”. Impossível não sentir arrepios na nuca ao ouvir “Danielle (smile on my face)”, “Nathan (still breathing)” ou “Bleu (better with time)”. Os bangers absolutos “leavemealone”, “Jungle”, “Turn On The Lights again..” ou “Delilah (pull me out of this)” são exemplos perfeitos de música exorbitante e experimental, preparada para aniquilar estigmas e pôr qualquer corpo a suar de tanto saltar e dançar.

Fred transcende os limites da expressão artística e é por isso que me é impossível falar sobre ele sem o associar a honestidade e humildade. Não é todos os dias que encontramos um artista que consegue abrir mão do seu ego (que permeia, muitas vezes, o mundo artístico) para ir em busca da essência da emoção. Esta abordagem que tanto caracteriza a sua música é definitivamente uma lufada de ar fresco. Cada vez mais olho para a sua arte enquanto uma colaboração entre ele e nós, ouvintes, onde a beleza emerge da liberdade interpretativa. Ouvir Fred é ter liberdade para sentir, refletir, interpretar e transcender, transformando a experiência sonora em algo profundamente pessoal e, ao mesmo tempo, universal. Ouvir Fred convida-nos à intimidade emocional, lembrando-nos de que a verdadeira beleza artística reside na capacidade de conectar-se, de maneira descomplicada e autêntica, com as complexidades da experiência humana.

Fred again.. é esotérico no melhor sentido possível, sendo praticamente impossível ficar indiferente a este universo sonoro que vive mais de batidas do que de palavras. É uma espécie de catalisador de paz, que ressoa em sintonia com as necessidades mais profundas da humanidade. É uma espécie de lembrete do poder que a música tem: nela podemos encontrar a serenidade que o mundo tanto anseia.

O caminho sonoro para a descoberta da paz interior, ecoando como uma promessa de tranquilidade, esperança e resiliência diante deste caos que é, por vezes, o mundo: obrigada Fred pela música que é refúgio para mim e para tantos outros.

Nascida e criada em Aveiro, mas com a Covilhã sempre no coração, cidade que a acolheu durante os seus estudos superiores. Já passou pelo Gerador, e pelo Espalha-Factos, onde se tornou coautora da rubrica À Escuta. Uma melómana sem conserto, sempre com auscultadores nos ouvidos e a tentar ser jornalista.
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Sinfonia de emoções.

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